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Vitrine de mim




imagem: bansky



fechando ciclos


insistindo em minha decisão por cultivar algumas esperanças que me façam sentido, mas pronta a assumir que é tempo de fechar parênteses para preservar o fio da meada em minha própria narrativa.

tenho andado pesada demais, carregada de tantos "ontens" que me falta fôlego para focar no amanhã. talvez seja hora de deixar a bagagem emocional desse meu “canto” um pouco de lado, tentar me libertar das velhas histórias, das expectativas vencidas e principalmente dessa mulher que, apesar de não ser mais eu, ainda posa de “vitrine de mim”.

como continuo meio cética em relação à necessidade de pontos finais, prefiro dizer que esse espaço estará, assim como eu, a partir de hoje e a perder de vista, “por concluir”.

um dia - quem sabe? - talvez tudo faça um enorme sentido e eu consiga costurar os diferentes capítulos dessa trama sem tanto esforço. fica tudo em aberto - como a vida tende a ser -, mas por hora vou em busca de um canto mais livre. é que o passado é bonito, mas tem me encarcerado.

deixo um grande abraço aos amigos que vez ou outra pousam por aqui e – mesmo em silêncio – sempre me fizeram a mais doce companhia. obrigada. de coração.




" - Sometimes I hate you so much, Justine. "


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Cecília Meireles



alguém aí me promete que haverá, sim, muitas flores na nova estação?

(é que tá tão difícil acreditar que o inverno acaba hoje...)


Não é novidade, eu sei. Já aconteceu antes e eu lembro bem do quanto doeu. Mas lembro também que acontecia sempre de algo cá dentro exigir que eu seguisse adiante, pois um dia... Ah, um dia eu ainda teria uma história bonita e sem ponto final, todinha pra mim.

E como eu tenho essa mania de acreditar por inteiro nas coisas que quero demais, termino assim, absolutamente sem chão, tentando a todo custo disfarçar esse gosto amargo que me invade sempre que as minhas histórias - não importa quão belas - imploram por um ponto final.

Mas, afinal, é preciso encontrar alguma serenidade para cultivar a pontinha que me resta dessa fé dolorida. É preciso cuidado para não desperdiçar o último fôlego de paciência, apesar da dor de tantas esperas, e tentar não cair nessa armadilha de me sentir meio boba por querer tanto um tipo de amor meio fora de moda.

E apesar dessa falta de ar sempre que a noite chega carregada de sua ausência e desse vazio que me inunda quando grandes promessas não são cumpridas, eu ainda me recuso a aceitar que pontos finais sejam sempre necessários. E por mais ingênuo que possa parecer, prefiro acreditar que é, realmente, "só uma questão de paciência".


Ando tão confusa que não sei se sinto raiva ou peço perdão. Resta essa sensação de que fui eu quem não soube organizar tudo que tinha para dar. Uma impressão injusta de que, por incompetência, não soube conduzir a crise, vencer meus medos, ou superar as dificuldades. À margem disso, fui me abandonando aos poucos em nome do que julguei necessidades de um outro alguém. Não eram.

Sinto que sufoquei de amor e deixei que a minha parte mais bonita morresse lentamente por falta de ar. Agonizando. Num dado momento, precisei muito que um golpe de misericórdia qualquer me livrasse do peso de perder ele aos poucos. Mas não previ que em seguida a esse tipo de morte não existe nenhuma espécie de paz ou calmaria. Nem que eu teria, a partir de então, que continuar doendo, em carne viva, absolutamente à flor da pele carregando tudo que tenho de mais humano entalado na garganta.

Hoje eu fui engolida por uma tristeza com tão poucas esperanças que ando meio em choque, estabanada, sem saber o que querer a partir de agora. Porque justo eu, que sempre estive muito à vontade com a minha solidão, me permiti acreditar na ideia doce de ter alguém para sempre.



Ei, garota, se toca. Chega de tentar entender o que foi mesmo que deu errado e começa a abrir espaço pra o tanto que ainda pode dar certo. Já é hora.

("É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor.")



"Essa morte constante das coisas é o que mais dói."

(Caio Fernando Abreu)


... e quando finalmente eu aceitar que tudo isso que tenho no peito não é suficiente, faço o quê?


Não é que as coisas sejam complicadas; a gente é que talvez não saiba lidar com a imperfeição. Aí acontece desse jeito troncho, criança de birra incapaz de aceitar o irremediável. E mesmo com os fatos postos e todas as cartas abertas sobre a mesa, essa porção infantil que nos resta insiste em se contorcer magoada dentro do peito, tentando se apegar a qualquer resquício de beleza que possa disfarçar tantas verdades que doem.


Livrai-me de tudo aquilo que for vazio de amor.

(Caio Fernando Abreu)


- cadê o sono?
- fugiu correndo, sorrateiro, de mãos dadas com a serenidade...


só hoje me dei conta de que ele foi a primeira vontade adulta da minha vida.


mas aí você lembra de um punhado de coisas lindas que te fazem sentir vivo e percebe que, apesar de tudo, você nasceu pra acreditar.


você sente um vazio sem nome, uma dor disforme de quem não sabe se sabe porque é mesmo que dói sempre tanto assim. você não sabe. ou talvez saiba, mas não tem coragem de assumir que sabe. você até tenta não pensar, evitando ir longe demais. é que saber que sabe pode machucar fundo demais e você sente que, cá entre nós, não deve ser saudável carregar tanto peso de uma só vez.

mas existe também essa impossibilidade de leveza, essa ervilha debaixo do colchão, a suspeita incômoda de que você talvez saiba, sim, um pouco além do que previa. daí o medo. daí o pavor de dizer em voz alta o que acredita saber, como a evitar que suspeitas incômodas se vistam de clareza. medo de se tornar responsável pelo que se esconde nas esquinas da consciência. medo de ser tragado pela lucidez da própria condição e se descobrir menos do que um dia pretendeu. medo de falar alto de todos esses medos e acabar despertando a legião de demônios que, não se sabe como, um dia conseguiu pôr para dormir.

é sempre por medo que você evita ir mais a fundo nesse lugar onde talvez já tenha até chegado. e eu te entendo, sabe? porque, afinal de contas, existe sempre essa possibilidade aterrorizante à sua espreita, de estar fazendo tudo errado. mais uma vez. e você sabe que a única chance que tem de seguir adiante, talvez, seja mesmo descobrindo um jeito de não saber. pelo menos por enquanto.

um dia experimentei uma atemóia e foi tão doce!
só não lembro bem o gosto da fruta...

Tem gente que consegue puxar nosso tapete com tanta doçura, que a queda é até meio cômica.


Preciso confessar minha urgência por uma incondicionalidade (qualquer) de sua parte.
Alguns diriam: infantil. Melhor seria: humana.


Vez ou outra, quando algumas expectativas não se cumprem, a gente tenta seguir adiante fingindo que nem percebeu (e faz de tudo pra disfarçar essa dorzinha constrangedora, típica dos que desejaram demais).








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